NA MAIOR PLANÍCIE ALAGADA DO MUNDO - A TRIBUNA, 29/12/2025
“Pé com palha, pé sem palha” era uma brincadeira (verbal apenas) que usávamos para dar início à ordem unida em um grupo de artilharia articulado numa brigada de cavalaria, na fronteira Oeste do Brasil. Naquela época, terceiro quartil do Século XX, a 4ª. Brigada de Cavalaria Mecanizada - Brigada Guaicurus – era equipada com cavalos de montaria e de tração de material bélico. A brigada tinha como área de vigilância toda a área do Pantanal, estendendo-se ao longo da calha do rio Paraguai até alcançar o país vizinho que tem o mesmo nome.
Lá, na maior planície alagada do mundo, os jovens convocados para o serviço militar obrigatório vinham de enormes fazendas do Pantanal. Para eles, felizmente, não tínhamos que explicar como fazíamos para orientar os canhões por meio de uma técnica chamada “determinação astronômica de uma direção”. Cada soldado tinha uma função específica, altamente repetitiva e exaustivamente treinada. Muitas vezes precisávamos sim, orientá-los quanto ao uso de um calçado e/ou de uma bandeja militar articulada para uso nas refeições, pois eram “peões” das fazendas e naqueles ambientes, muitas vezes tinham que criar seus próprios pratos de alimentação, usando a pele grossa e escamada dos peixes abundantes. Ao fogo, a pele escamada do pacu, por exemplo, de torna em um prato excelente e sua gordura serve como tempero para a ração de combate. Eram soldados formidáveis, pois estavam acostumados a obedecer e a cumprir ordens dos fazendeiros. Por exemplo, se mandássemos atravessar um “corricho”, ou seja, um riacho estreito, mas profundo, eles sabiam que não deixaríamos acontece o que comumente chamamos de “a vaca foi para o brejo”. Antes de iniciar a travessia, uma equipe de soldados especialistas lançava uma corda entre duas arvores, em margens opostas, e todos faziam a travessia à montante da correnteza ou mediante rapel horizontal.
Esta “estória” tão simples sobre sobrevivência em ambientes hostis, nos leva a pensar na importância do trabalho em grupo, montado sobre anos de experiência e observações que somente o tempo e a prática funcional nos permitem resolver alguns problemas, de forma efetiva, mas sem ferir suscetibilidades. Um exemplo, certa vez um soldado, brindando, acabou por “cravar” um garfo de campanha na mão de um companheiro. Pouco antes do almoço, sob Sol escaldante, colocamos todos em forma e passamos a proferir uma longa fala sobre o respeito ao próximo. Isso, propositadamente, levou um longo tempo de formatura, em posição de descansar, imóveis ou como se dizia, “sem piscar, nem com os olhos”, ou seja, bastante redundante, pois a ideia era exatamente a de induzi-los a evitar uma fala prolongada antes das refeições.
Nada substitui a experiência, como nos ensinou Suz Tzu, c.500aC: “lutar e vencer todas as batalhas não é a glória suprema; a glória suprema consiste quebrar a resistência do oponente sem lutar”.
Elcio Rogerio Secomandi
Academia Santista de Letras
Academia de História Militar Terrestre do Brasil
Academia de Letras e Artes da Praia Grande, SP.