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A RETIRADA DA LAGUNA. EPOPÉIA VIVIDA NA MAIOR PLANÍCIE ALAGADA DO MUNDO

Sobre a presença militar no Pantanal - breve relato pessoal publicado no jornal A TRIBUNA, 01/06/2026.

NA MAIOR PLANÍCIE ALAGADA DO MUNDO

            “Pé com palha, pé sem palha” era uma brincadeira (verbal apenas) que usávamos para dar início à ordem unida em um grupo de artilharia articulado numa brigada de cavalaria, na fronteira Oeste do Brasil. Naquela época, terceiro quartil do Século XX, a 4ª. Brigada de Cavalaria Mecanizada - Brigada Guaicurus – era equipada com cavalos de montaria e de tração de material bélico.  A brigada tinha como área de vigilância toda a área do Pantanal, estendendo-se ao longo da calha do rio Paraguai até alcançar o país vizinho que tem o mesmo nome.

            Lá, na maior planície alagada do mundo, os jovens convocados para o serviço militar obrigatório vinham de enormes fazendas do Pantanal. Para eles, felizmente, não tínhamos que explicar como fazíamos para orientar os canhões por meio de uma técnica chamada “determinação astronômica de uma direção”. Cada soldado tinha uma função específica, altamente repetitiva e exaustivamente treinada. Muitas vezes precisávamos sim, orientá-los quanto ao uso de um calçado e/ou de uma bandeja militar articulada para uso nas refeições, pois eram “peões” das fazendas e naqueles ambientes, muitas vezes tinham que criar seus próprios pratos de alimentação, usando a pele grossa e escamada dos peixes abundantes. Ao fogo, a pele escamada do pacu, por exemplo, de torna em um prato excelente e sua gordura serve como tempero para a ração de combate. Eram soldados formidáveis, pois estavam acostumados a obedecer e a cumprir ordens dos fazendeiros. Por exemplo, se mandássemos atravessar um “corricho”, ou seja, um riacho estreito, mas profundo, eles sabiam que não deixaríamos acontece o que comumente chamamos de “a vaca foi para o brejo”. Antes de iniciar a travessia, uma equipe de soldados especialistas lançava uma corda entre duas arvores, em margens opostas, e todos faziam a travessia à montante da correnteza ou mediante rapel horizontal.

            Esta “estória” tão simples sobre sobrevivência em ambientes hostis, nos leva a pensar na importância do trabalho em grupo, montado sobre anos de experiência e observações que somente o tempo e a prática funcional nos permitem resolver alguns problemas, de forma efetiva, mas sem ferir suscetibilidades. Um exemplo, certa vez um soldado, brindando, acabou por “cravar” um garfo de campanha na mão de um companheiro. Pouco antes do almoço, sob Sol escaldante, colocamos todos em forma e passamos a proferir uma longa fala sobre o respeito ao próximo. Isso, propositadamente, levou um longo tempo de formatura, em posição de descansar, imóveis ou como se dizia, “sem piscar, nem com os olhos”, ou seja, bastante redundante, pois a ideia era exatamente a de induzi-los a evitar uma fala prolongada antes das refeições.

            Nada substitui a experiência, como nos ensinou Suz Tzu, c.500aC: “lutar e vencer todas as batalhas não é a glória suprema; a glória suprema consiste quebrar a resistência do oponente sem lutar”.

PUBLICADO NO JORNAL A TRIBUNA, 01Q06/2026

 

A RETIRADA DA LAGUNA

            Ousamos apresentar um escorço bibliográfico sobre uma obra literária de autoria do fundador e patrono da Cadeira Nr 13 da Academia Brasileira de Letras (ABL), Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay (1843-1899), Visconde Taunay, destacando-o como 2º tenente de artilharia e secretário militar das operações bélicas que envolveram o Brasil, a Argentina e o Uruguai, na chamada Guerra da Tríplice Aliança (1869-1870).

            Sua fantástica obra literária, A RETIRADA DA LAGUNA, descreve a operação militar ocorrida na parte sul do atual Estado de Mato Grosso do Sul e encontra-se disponível na Biblioteca Virtual do Senado Federal, volume 149. Taunay descreve com minúcias o retraimento da tropa brasileira desde a fronteira com o Paraguai até a pequena vila de Nioaque, perseguindo-a por cerca de 300 Km por terra e águas pantaneiras disputadas pelos índios guaranis, que apoiavam os paraguaios, e os índios guaicurus, que apoiavam os brasileiros. Conhecidos atualmente como Voluntários da Pátria, os soldados brasileiros alcançaram a região de Laguna, na fronteira, expulsando assim, as tropas paraguaias de Solano López, as quais contra-atacaram a tropa brasileira em operação militar que acabou por se tornar a maior epopeia militar da América do Sul, muito bem descrita por Taunay no seu Diário do Exército – Campanha do Paraguai.

O livro escrito originalmente em francês (1871) e traduzido para o português em 1872, por solicitação do governo imperial aborda a epopeia da tropa brasileira, conhecida como “Voluntários da Pátria”, ocorrida entre a pequena vila de Laguna, no Paraguai, e a vila de Nioaque no Brasil, distantes cerca de 350 km pelo Pantanal ainda virgem naquela época. A expedição militar foi organizada no Rio de Janeiro, capital do Império, tinha por objetivo expulsar as tropas paraguaias que invadiram o Mato Grosso em ação militar “dissuasória”, visando enfraquecer o esforço da tropa brasileira nas operações ao sul do Brasil, onde o Paraguai tentou sim, obter uma saída para o Oceano Atlântico na região da Bacia do Rio da Prata. A busca paraguaia por uma saída para o mar motivou a reação do Brasil, da Argentina e do Uruguai, por meio da chamada Tríplice Aliança, com operações militares encerradas no dia 1 de março de 1870, em Cerro Corá, onde faleceu o ditador paraguaio, Solano López.    

Finalizando este pequeno relato histórico pouco conhecido, tomamos a liberdade de incluir uma colocação pessoal, pois a lembrança de dois anos no comando da guarnição de Nioaque foi a motivação maior para rememorar alguns fatos que julgamos significativos, descritos no livro original disponível no portal do Senado Federal. Ou seja, a oportunidade de encerrar em Nioaque os meus 35 anos de serviço ativo no Exército Brasileiro, após comandar o 9º Grupo de Artilharia de Campanha, na região pantaneira onde ocorreu a epopeia vivida e descrita pelo Visconde de Taunay.

Elcio Rogerio Secomandi / Ex-comandante do 9º GAC, Nioaque, MS (1986/1987) / Titular da Cadeira Nr 4, Visconde de Taunay, do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e Professor Emérito da Universidade Católica de Santos. Membro Academia de História Militar Terrestre do Brasil e da Academia Santista de Letras.

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